METODOLOGIAS PARTICIPATIVAS DE PESQUISA COM CRIANÇAS
O GEPCEI tem investido em pesquisas que busquem a participação das crianças e sua expressão em diferentes metodologias, técnicas e instrumentos de pesquisa. Busca-se, com isso, dar voz à criança nos assuntos que lhes são diretamente correspondentes. Para o GEPCEI, as crianças, nas interações e relações que produzem, desenvolvem uma competência social que as qualificam como partícipes do processo educativo.
Segundo Hutchby & Moran-Ellis (1998) as crianças são “agentes ativas que possuem e podem asseverar complexas competências sociais por direito próprio” (p. 8). Sendo assim, “competência social é vista como algo que crianças trabalham para possuir em seu próprio direito, uma demonstração do que é uma conquista ativa, atuante.” (p. 14). Ou seja, as vozes das crianças são vozes polifônicas que revelam ou desvelam as estruturas sociais nas quais estão inseridas. Por constituir-se histórica-social e culturalmente, os dados das pesquisas retrataram elementos a partir das vozes das crianças em suas diferentes infâncias. Portanto, as formas de compreensão do mundo pelas crianças revelaram “como [estas] manipulam competentemente recursos materiais e culturais de modo a se engajarem em comportamentos contextualmente apropriados” (p. 16).
Moran-Ellis, 2010 e Newman et al., 2009 abordam que a perspectiva de dar voz às crianças implica ouvi-las não somente no sentido acima referido, de produção de interpretações sobre a realidade, mas, também, no que se relaciona aos aspectos próprios de construção da realidade. Argumentam que competência social não é um fenômeno individual que possa ser traçado num desenvolvimento linear, mas uma questão intrinsecamente contextual. De acordo com os autores, as arenas de ação das crianças são a família, o grupo de pares (arena de fala e interação) e a arena de conhecimento institucional.
Os enfoques das pesquisas e a adoção de estratégias ludo-investigativas para o trabalho com as crianças, consideram a própria criança como sujeito da pesquisa e não objeto dela. Isso significa tomá-la como interlocutora principal, portanto, protagonista, em que seu pensamento, sua voz e suas ações são consideradas como importantes no processo de apreensão e conhecimento do mundo. Significa, portanto, dar voz às crianças na interpretação dos seus mundos sociais e culturais, uma vez que parte-se do pressuposto de que as crianças são actores sociais competentes para a interpretação da realidade social.
Neste sentido, a voz da criança, como objeto de estudo desta pesquisa, é sempre uma voz polifônica. Por ser constituído histórico, cultural e socialmente, o ser humano é sempre um sujeito polifônico. Na etimologia da palavra, polifonia significa “muitos sons”. Neste contexto do projeto de pesquisa significa dizer que a voz da criança é repleta de muitas visões de mundo, muitas palavras, muitas histórias, de várias origens, que dialogicamente se fundam no social. Um social não homogêneo, não transparente: um social ideologicamente opaco, constituído de signos, que é preciso desvendar para “des-cobrir” o mundo: “em suas falas e imagens, ecoam simultaneamente outras vozes, distantes, próximas e até imperceptíveis. São as vozes da história política, cultural e econômica que os nomeia como crianças (…)” (VALDERRUTÉN, 2008, p. 3). Para Sarmento (2006) é preciso “ouvir a voz das crianças”. Esta expressão condensa todo um programa, simultaneamente teórico, epistemológico e político:
O programa teórico assenta na constatação de que as crianças têm sido silenciadas na afirmação da sua diferença face aos adultos, e na expressão autónoma dos seus modos de compreensão e interpretação do mundo; estudar as crianças como actores sociais de pleno direito, a partir do seu próprio campo, e analisar a infância como categoria social do tipo geracional é o objectivo a que se tem proposto a Sociologia da Infância, para quem “ouvir a voz das crianças” se constitui mesmo como uma directriz vertebradora na compreensão de factos e dinâmicas sociais onde as crianças contam (e.g. Qvortrup, 1991; Corsaro, 1997; James, Jenks, Prout, 1998; Sirota, 1998; Mayal, 2002). O programa epistemológico manifesta-se na ideia, cara à abordagem sócio-antropológica da infância, de que entre o mundo adulto e as crianças existe uma diferença que não é apenas de nível de registo ou de maturidade comunicativa, mas radica na alteridade da infância, insusceptível de ser resgatada pela memória que os adultos possuem das crianças que foram, mas que se exprime na peculiar organização do simbólico que a mente infantil e as culturas da infância proporcionam. O programa político exprime-se na constatação de que as crianças permanecem excessivamente afastadas dos núcleos centrais de decisão sobre aspectos que dizem respeito às condições colectivas de existência e que esse afastamento, sendo a expressão da dominação adulta, é um modo de hegemonia e de controlo, cujo resgate não encontra outra possibilidade senão precisamente por tornar presente a voz das crianças na participação social e na decisão política (e.g. Lee, 2001). (Sarmento, produções simbólicas) (p. 1)
o GEPCEI tem adotado, em todas as suas pesquisas, a perspectiva de triangulação de dados com, no mínimo, três metodologias e instrumentos. Isso possibilita aos/às pesquisadores/as confrontar dados e construir categorias mais consistentes na apreensão das pesquisas. As metodologias, estratégias de investigação e instrumentos, são adaptados à idade e natureza das pesquisas. De modo geral, o GEPCEI trabalha com:
o sujeito é sempre um narrador em potencial. O fato é que ele não narra sozinho, reproduz vozes, discursos e memórias de outras pessoas, que se associam à sua no processo de rememoração e de socialização, e o discurso narrativo, no caso da roda de conversa, é uma construção coletiva. No contexto da produção de dados, o pesquisador deve compreender que as memórias culturais e individuais estão intimamente ligadas (MOURA; LIMA, 2014, p. 100).
Algumas pesquisas também inovam em construir estratégias ludo-participativas-investigativas. Essas estratégias, a depender do enfoque das pesquisas, utilizam-se de recursos lúdicos e da fantasia do real para produção de dados qualitativos nos diálogos com as crianças. Seguem alguns exemplos:
A coleta de dados contou com a triangulação de três técnicas – a bricolagem, o desenho e a roda de conversa –, que perfizeram um total de dez encontros aos finais de tarde na praça, palco dos diálogos trazidos para as reflexões teóricas. Elas foram escolhidas por já terem alcançado sua validação no campo da pesquisa com crianças, por possibilitarem a escuta desses sujeitos e por poderem ser aplicadas no local da investigação. Foram pensadas com o intuito de compreender os constructos de imagem corporal das crianças participantes do estudo, buscando o devido distanciamento do olhar adultocêntrico sobre elas para ouvi-las e considerá-las sujeitos sociais.
Já o espelhamento de imagens por meio do desenho foi a segunda atividade dessa técnica. Nela, as crianças foram convidadas a pegar aleatoriamente uma prancheta com uma ficha composta por quatro metades de imagens de criança, impressas em cores, e desenhar a parte inexistente na figura, por meio de objetos como lápis grafite, lápis de cor, giz de cera, borracha e apontador.
E a terceira atividade foi a oficina de bonecos(as), na qual as crianças escolhiam os(as) que estavam em uma caixa colorida e eram convidadas a vesti-los – para tanto, elas deveriam escolher cinco itens dentre os disponíveis e argumentar sobre as suas escolhas.
Todas as estratégias ludo-participativas-investigativas tiveram o objetivo de compreender a percepção das crianças sobre seus corpos.
O instrumento utilizado para a observação direta dos sujeitos nos momentos das rodas de conversa foi os registros fílmicos. Ressalta-se que interessou a esta pesquisa apenas o registro do desenvolvimento das rodas e seus conteúdos; portanto, sua formação, início, desenvolvimento e conclusão. A prática de “auscultação” da criança requer o domínio, por parte do adulto, de metodologias que possibilitem a compreensão daquilo que ela quer expressar e que garanta a sua participação nessas situações. Pôde-se contar, na efetivação dessa prática, com os registros escritos, a observação, a fotografia, a gravura, a filmagem, o faz de conta, entre outros elementos passíveis de ser utilizados pelos profissionais para coleta de dados com vistas à posterior análise. Como possibilidade de escuta das crianças, destaca-se a proposição da roda de conversa que, segundo De Angelo (2011, p. 60), pode ser percebida como um […] espaço de partilha e de confronto de ideias. Um dispositivo pedagógico que possibilita as crianças o direito à participação. A roda de conversa se afirma como espaço de diálogo, trocas, constituição de sujeitos, escuta em que as crianças assumem papel ativo na comunicação.
Como procedimentos metodológicos para coleta de dados, foram inicialmente utilizadas algumas técnicas de pesquisa com crianças que seguiram a seguinte ordem: primeiro, a conversa informal, visando a uma aproximação com a mesma; realização de diálogos mediados com questões previamente estruturadas; jogos de sentenças incompletas; uso de vídeos; uso de caixas lúdicas com fantasias.
As crianças foram estimuladas a brincarem com duas caixas lúdicas. Na primeira caixa, foram colocados objetos do imaginário infantil, como bonecas, bolas, carrinhos, usos de pelúcia e outros. Por meio dessa primeira caixa, as crianças eram estimuladas a dizer como elas se sentiam como crianças, momento em que eram incentivadas a escolherem objetos da caixa e a dizerem o porquê de terem escolhido tal brinquedo. O objetivo era estimular um diálogo inicial com as crianças. O brincar é uma ação social e cultural, portanto aprende-se a brincar e aprende-se, também, como e do que brincar. Assim a “[…] fantasia sempre se constrói com materiais retirados do mundo real” (VYGOTSKY, 1986, p. 17). Logo em seguida, as crianças escolhiam objetos na segunda caixa com materiais do mundo adulto. À medida em que se envolviam com os objetos, eram questionadas sobre como elas seriam se fossem adultas. Por meio desses objetos escolhidos pelas crianças, elas eram incentivadas a fotografarem suas performances por meio de selfies tiradas do celular do pesquisador. As fotos foram utilizadas pelo pesquisador para aprofundar a conversa sobre a sua visão do mundo adulto.
Já a utilização do jogo da memória, com imagens sobre violência, buscou trazer à tona, os sentimentos das crianças sobre as questões que vivenciaram no contexto das violências domésticas. Da mesma forma, as crianças foram convidadas a participarem de outra atividade, qual seja, jogo de sentenças incompletas, que consistia em tiras de papel, nas quais as crianças eram convidadas a completar as frases com palavras, ideias ou desenhos. Desse modo, para a aplicação do jogo de sentenças incompletas, o entrevistador lia para a criança as sentenças, instruindo-a previamente, para que ela respondesse completando as sentenças com a primeira frase.
A leitura literária também foi um recurso utilizado. Nessa etapa da coleta de dados, as crianças receberam a cópia do livro impresso, do qual deveriam escolher alguma imagem ou frase do livro e depois colá-la em um outro papel e demostrar o sentimento por essa frase ou imagem. Além disso, deveriam escolher, em um banco de palavras do texto, aquelas que ajudam a revelar o sentimento sobre o livro. Ao final, a criança deveria apresentar sua bricolagem e falar sobre sua produção. Registra-se, também, o uso de pequenos vídeos didáticos, cuja temática era violência familiar.
Para a recolha de dados, a escuta das crianças se deu pela utilização de filmagens, desenhos, rodas de conversa, fotografias, observação, conversa informal e diário de bordo. Em relação aos processos de organização deste trabalho, a metodologia da pesquisa qualitativa implicou na “pesquisa de campo” e o recolhimento de dados concretos no contexto da cultura indígena Inỹ Karajá e na escola urbana em que as crianças estudavam. Já na escola o foco se deu a partir de um processo de observação mais sistematizado, voltado principalmente para as brincadeiras das crianças Inỹ Karajá. Esta opção metodológica foi fundamental para compreender essas crianças no ato do brincar, em seus processos de interação entre os pares iguais e pares diferentes.
Em meio às observações das brincadeiras das crianças, sempre que algo nos chamava a atenção, realizava-se uma conversa rápida e informal com as crianças a fim de compreender o contexto de determinada brincadeira e o que as crianças Inỹ Karajá pensavam sobre ela. Essas conversas, em sua maioria, realizadas em formato de perguntas da pesquisadora para as crianças, eram rápidas para não perderem o pique da brincadeira e registradas no diário de campo. Desta forma, a pesquisa de campo se configurou como fundamental na recolha dos dados, tanto das vozes, dos desenhos, das imagens, das brincadeiras e diálogos com as crianças quanto do documento que norteiam as atividades pedagógicas e administrativas da escola lócus da pesquisa, o seu Projeto Político Pedagógico (PPP). Foi importante também porque acompanhamos os modos próprios como as crianças Inỹ Karajá constroem suas culturais infantis e as nuances do mundo infantil. Conviver com essas crianças e acompanhar seus movimentos nos possibilitou ainda (re)conhecê-las enquanto sujeitos engendrados nas fronteiras visíveis entre a escola e aldeia e nas fronteiras invisíveis provocadas pelo distanciamento entre indígenas e não indígenas.
A fim de apreender os significados do estar só e o estar com o outros na creche, particularmente o movimento das crianças nesses aspectos, os instrumentos de coleta de dados foram observações no campo com os bebês, anotações no diário de campo, registro de filmagens do cotidiano dos bebês, registro de fotografias, transcrição dos vídeos, microanálise dos vídeos e extração da filmagem em fotografias sequenciadas, entrevista semiestruturada com as profissionais sobre o objeto da pesquisa, leitura do Projeto Político Pedagógico (PPP) e do Currículo da Educação Infantil.
Consoante os instrumentos de coleta de dados da pesquisa, a seleção do material empírico foi feita por meio de anotações em diário de campo; registro de filmagens do cotidiano do bebês; registro de fotografias; transcrição dos vídeos; microanálise dos vídeos e extração da filmagem em fotografias sequenciadas; triangulação dos dados: diário, fotografia e vídeos; entrevista semiestruturada com os profissionais sobre o objeto da pesquisa (Apêndice 2); leitura do Projeto Político Pedagógico (PPP) e do Currículo da Educação Infantil.
A observação das rodas de conversas se deu também por meio de filmagem de quatro reuniões do grupo do Movimento de Adolescentes e Crianças (MAC) nas cidades de Goiás e Goiânia, correspondendo a um período de um mês em cada grupo, sendo que uma dessas rodas de conversa foi mediada pela pesquisadora. Após as transcrições, as observações constituíram-se em planilhas de análises. De acordo com Viana (2007, p. 12), “ao observador não basta simplesmente olhar. Deve, certamente, saber ver, identificar e descrever diversos tipos de interações e processos humanos.” Acerca da roda de conversa, Moura; Lima, (2014, p. 101) pontuam que “as rodas de conversa promovem a ressonância coletiva, a construção e a reconstrução de conceitos e de argumentos através da escuta e do diálogo com os pares e consigo mesmo.” Outro procedimento utilizado foi as entrevistas. Estas foram realizadas com um acompanhante de cada grupo e dois jovens egressos que pertenciam anteriormente ao MAC do Estado de Goiás. Com esse procedimento, intentou-se descobrir a voz e as práticas das pessoas adultas envolvidos com o Movimento de Adolescentes e Crianças. Após a coleta de dados, que se deu mediante a esses pressupostos anteriormente mencionados, fez-se necessário contextualizar o objeto da pesquisa e para isso utilizou a análise dos dados, pois essa compreende e propõe interpretar as mensagens advindas de um texto verbal (oral e escrito) e não verbal (gestual, silencioso, figurativo…).
Instrumentos metodológicos para coleta de informação- Pesquisa documental, pesquisa bibliográfica e contatos diretos. Contato: – Observação participante – diário de campo. Entrevistas ou questionário via google forms ou presencial; Grupo de discussão com as crianças com gravações pela plataforma meet e encontros presenciais. Forma de registro. Diário de Campo de pesquisa com 26 registros e relatos da pesquisadora. Detalhamento de sete encontros com as crianças. Vídeos e áudios com quantidade de horas de 16h e 62 minutos para análise.
Os procedimentos éticos e metodológicos culminaram em pesquisa empírica, entrevista semiestruturadas com adultos, grupo de discussão com as crianças, relato em diário de campo, observação participante, pesquisa bibliográfica e documental. A escuta das vozes dos sujeitos participantes desta pesquisa, em especial as crianças, objetivou dar visibilidade aos seus sentidos e significados quanto ao modo de compreensão sobre o corpo e sobre a deficiência. O conjunto dos trabalhos realizados resultou no material para a construção da tese (LUDKE, 1986). Neste aspecto, pormenorizamos abaixo os seguintes instrumentos e procedimentos metodológicos, utilizados para coleta de dados:
Observação Participante – Corpo e Deficiência | Uma conversa com questões Semiestruturadas sobre o corpo. |
Observação Participante. Infância- corpo e cuidados com o corpo. | Caixa Mágica – Infância-Corpo- cuidados com o corpo. |
Observação Participante. Corpo – deficiência. | Grupo de discussão com o tema para as duplas: Todos corpos merecem respeito, todo corpo pode brincar– Compreendendo um pouco sobre as diferenças. |
Observação Participante. Corpo – deficiência física- escola. | Grupo de discussão: Deficiência física – crianças – escola. |
Procedimentos da pesquisa – a pesquisa de campo foi realizada com no máximo 10 crianças – devidamente autorizadas pelos pais/responsáveis – que aderirem a pesquisa. Foram realizados 7 encontros de coleta de dados, de aproximadamente 1 hora cada, sendo 6 encontros com as crianças participantes e 1 encontro com os seus respectivos pais/responsáveis. Em cada encontro com as crianças será realizada uma atividade/dinâmica para apreender na perspectiva delas as diferenças/diversidades. O cronograma desses encontros será definido com a direção da instituição.
Já com os pais/responsáveis foi realizado uma entrevista semiestruturada acerca do objeto da pesquisa, em dia e horário previamente agendado e, salvaguardando o que está expresso no Artigo 6º, da Resolução CNS nº 510/16.
A entrevista semiestruturada (MINAYO, 2001), é utilizada com questões norteadoras que permite ao entrevistador explorar amplamente as questões desejadas. Segundo Triviños (2001), a entrevista semiestruturada constitui uma das ferramentas mais utilizadas pela pesquisa qualitativa para atingir os seus objetivos. É uma técnica de obtenção de informação, que e caracteriza pelo estabelecimento de uma interação social entre o entrevistador e o entrevistado. Triviños esclarece que:
[…] a entrevista semiestruturada se transforma num diálogo vivo do qual participam duas pessoas com objetivos diferentes, mas que podem se tornar convergentes. Ambos, entrevistado e pesquisador, procuram construir um conhecimento relativamente comum para determinada realidade pessoal e coletiva (TRIVIÑOS, 2001, p. 86).
Quanto as etapas da pesquisa de campo, detalhadamente, foram realizadas as seguintes ações:
Quadro 1 – Detalhamento da pesquisa
Etapa | Ação | Detalhamento 1h para cada encontro Máximo de 10 crianças de 11 anos de idade | Técnicas de registro |
Visitar o Cecom Objetivo: apresentar a proposta de projeto |
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Colher assinatura do Termo de Consentimento e Assentimento Livre e Esclarecido – TCLE e TALE Objetivo: autorização dos pais/responsáveis para realização da pesquisa com as crianças. |
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Colher assinatura no TALE Objetivo: pegar a autorização da criança para a realização da pesquisa |
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Planejamento pesquisa de campo Objetivo: organização dos encontros da pesquisa de campo |
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Pesquisa de campo com as crianças COLETA DE DADOS 1 Imagem e ação Objetivo: quebra gelo; primeiro contato das crianças com a temática da pesquisa. |
Divide-se o grupo em duas equipes. Cada grupo escolhe uma palavra e o representante do grupo deverá fazer apenas gestos para que os companheiros decifrem. As palavras serão relacionadas aos temas da diversidade: negro, indígena, homossexual, mulher, deficiente, etc. Ao final da brincadeira a criança escolhe um tema (podendo repetir conforme interesses das crianças) e preencher um formulário com as designações: O que eu sei sobre isso…….. O que eu não sei sobre isso…. O que me contaram sobre isso…….. O que eu acho sobre isso……. |
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Pesquisa de campo com as crianças COLETA DE DADOS 2 Bricolagem Objetivo: conhecer o que as crianças falam/conhecem sobre igualdade, diferença e desigualdade |
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Pesquisa de campo com as crianças COLETA DE DADOS 3 Roda de conversa Objetivo: identificar como as crianças veem a questão das diferenças/diversidades (qual/quais conseguem identificar) |
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Pesquisa de campo com as crianças COLETA DE DADOS 4 Roda de conversa Objetivo: identificar como as crianças veem a questão das diferenças/diversidades (qual/quais conseguem identificar) |
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Pesquisa de campo com as crianças COLETA DE DADOS 5 Roda de conversa Objetivo: identificar como as crianças veem a questão das diferenças/diversidades (qual/quais conseguem identificar) |
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Pesquisa de campo com as crianças COLETA DE DADOS 6 CARTA AOS PRODUTORES Objetivos: verificar a reação das crianças em relação aos vídeos. |
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Pesquisa de campo com as famílias COLETA DE DADOS 7 Entrevista semi-estruturada Objetivo: conhecer qual a perspectiva de diferenças/diversidade presente nos discursos dos pais/responsáveis |
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Os instrumentos de coleta de dados da pesquisa – a seleção do material empírico foi através de anotações em diário de campo, registro de filmagens com as crianças, transcrição dos vídeos, microanálise dos vídeos e extração da filmagem em fotografias sequenciadas, triangulação dos dados: diário, fotografia e vídeos; entrevista semiestruturada com os pais/responsáveis sobre o objeto da pesquisa.
A metodologia da pesquisa com crianças orientou-se pelos pressupostos defendidos por pesquisadores como Hutchby e Moran-Ellis (2005). Segundo eles, as pesquisas qualitativas se justificam pela natureza etnográfica como a melhor forma de apreender “por dentro” a forma do que eles chamam de competência social das crianças. Os métodos qualitativos, conforme Hutchby e Moran-Ellis (2005), são os meios adequados para realizarmos pesquisas com crianças e sobre infâncias. Hutchby e Moran-Ellis (2005) veem a pesquisa empírica como meio de sentir o estudo da competência das crianças e defendem ser a que mais permite perseguirmos a ideia de que as crianças são agentes sociais competentes. Nesse tipo de pesquisa, há o encontro com as circunstâncias reais, comuns, cotidianas delas. Lançamo-nos nessa orientação desde o momento de pensar o movimento da pesquisa, a forma da execução e as questões para comporem o roteiro do que pretendíamos abranger nos encontros com as crianças.
A pesquisa etnográfica se contrapõe à socialização da criança de forma adultocêntrica e contra as formas de enquadramento das experiências das crianças em estágios lineares de desenvolvimento individual. Esse cuidado se deve ao fato de que essas formas afastam ou desconsideram as experiências do presente/cotidiano das crianças, as experiências vividas, coletivas. E esse foi um ponto central adotado.
Por isso, a metodologia também se aproximou bastante das finalidades estabelecidas pela metodologia da Roda de Conversa, porém adaptada para o formato virtual. Passamos a estudar e compor as técnicas de uma Roda de Conversa Virtual, porém não renunciando aos elementos centrais da técnica para orientar nossa postura investigativa valendo-nos daquilo que esses autores propõem.
O corpus da pesquisa se constituiu das respostas dadas por dois grupos de cinco crianças, um de uma escola pública e outro de uma escola privada, com base em cinco temáticas discutidas por meio dos pressupostos da metodologia Roda de Conversa Virtual.
O material da pesquisa de campo gerou um acervo digital, com as filmagens dos encontros e das entrevistas com as professoras; acervo material, com os recursos para as dinâmicas, atividades e fichas de aceite, consentimento, assentimento; e caderno de campo, com registros manuscritos. A seguir, apresentamos um print dos arquivos dos registros fílmicos dos encontros (Figura 2).
Figura 2: Print dos arquivos dos registros fílmicos dos encontros
Fonte: Acervo digital da pesquisa. Documentos digitais, gravações em 30/11/2021.
Todo o trabalho com a pesquisa foi previamente planejado e detalhado, a fim de procedermos à coleta de dados, conforme se segue.
Constam do planejamento, os seguintes temas e momentos (Quadro 3).
Quadro 3: O que as crianças sabem, dominam e produzem na cultura digital
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Procedimento | Instrumento | Detalhamento |
Roda de Conversa Virtual | – Instrumento de Pesquisa: Cinco encontros com as crianças em plataforma digital. Um encontro com os pais das crianças, porém em dois momentos: um encontro com o grupo de pais das crianças da escola pública e outro com os pais das crianças da escola privada. Um encontro com as professoras das crianças. Tanto o encontro com os pais quanto o encontro com as professoras têm a finalidade do levantamento de dados sobre o que as crianças sabem das tecnologias midiáticas não só por elas, mas, também, pelo que família e professores/as dizem que elas sabem. (datas: 30/09/2023, 05/10/2023, 07/10/2023, 19/10/2023 e 21/10/2023) | – Detalhamento dos cinco encontros com as crianças: cada encontro terá a duração de 1h, agendado previamente. Contarão com a mediação de vídeos, desenhos produzidos e que serão comentados pelas crianças a partir do tema, perguntas de crianças para crianças etc. Terão a seguinte sequência de temas a serem debatidos:
– Detalhamento do encontro com as famílias: os dois encontros serão com grupos diferentes, um com o grupo de pais das crianças de escola pública (data: 20/10) e outro com as famílias das crianças da escola privada (data: 22/10), terão um único roteiro com perguntas semiestruturadas para condução dos debates sobre os temas:
– Detalhamento do encontro com as professoras: serão dois encontros com grupos diferentes, um com a professora das crianças de escola pública (data: 28/10) e outro com os professores das crianças da escola privada (data: 29/10). O encontro terá um roteiro com perguntas semiestruturadas para condução dos debates sobre os temas:
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Procedimento | Instrumento | Detalhamento |
Visita domiciliar: sondagem sobre o uso social das tecnologias com base em uma visita domiciliar de até 2h (duas horas) à casa de cada criança. Essa visita visa a apreender os domínios da criança em relação ao celular, à câmera/ ao vídeo e à internet (redes sociais, jogos e outros sites). (Datas: 01 a 26/11/2021) | – Entrevista semiestruturada e observação de campo | Detalhamento 1: visitas domiciliares às casas das crianças (não sendo possível as visitas domiciliares, planejaremos um ambiente na escola e receberemos os alunos individualmente). Observaremos a realidade socioeconômica e cultural das crianças e elaboraremos um roteiro de diálogo semiestruturado, a fim de que elas mostrem seus domínios e conhecimentos sobre os recursos tecnológicos. Detalhamento 2: ao término da visita, provocaremos as crianças a produzirem ou pesquisarem algo sobre um tema social que envolva crianças. Essa produção deverá ser apresentada nas trocas de experiências da próxima etapa da pesquisa (tema 3 – as produções das crianças). Orientar que elas organizem uma apresentação sobre um dos temas sociais: A criança e a pobreza; A criança e o meio ambiente; A criança e a violência; A criança e a escola. Elas poderão realizar suas apresentações, utilizando-se de vídeos, fotografias, desenhos, entrevistas etc. |
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Procedimento | Instrumento | Detalhamento |
Trocas de experiências | Plataforma virtual | Um encontro virtual para que as crianças troquem experiências sobre o que produziram a partir da provocação e problematização realizada na fase anterior. Nas trocas de experiências, cada criança apresentará seu tema que pode ser em vídeos, fotografias, desenhos, entrevistas etc. As produções serão relacionadas aos temas orientados na fase anterior: A criança e a pobreza; A criança e o meio ambiente; A criança e a violência; A criança e a escola. Após as apresentações (por blocos temáticos), as crianças e a pesquisadora podem fazer perguntas, a fim de ampliar o debate sobre o tema (data: 30/11 – após visita às casas). |
Fonte: Dados do Caderno de Campo da Pesquisadora. Encontros de 1 a 5 com as crianças das escolas pública e privada entre 09 e 26/11/2021.
As pesquisas produzidas pelo GEPCEI são, em sua maioria, realizadas em espaços institucionais de atendimento da infância (escolas e instituições de Educação Infantil). Todavia, o GEPCEI tem ampliado suas perspectivas de investigação em outros espaços nos quais as crianças também circulam, vivem e produzem significações. Estamos falando da presença das crianças nas aldeias, nas ruas, nas cidades, nas praças, nas instituições de acolhimento, nas instituições de proteção às mulheres, dentre outros.
Busca-se, nesses diferentes espaços, compreender a trama das relações sociais, dos contextos externos e internos dessas instituições que alteram a dinâmica formativa das crianças, além de compreender os processos de constituição das culturas infantis a partir das interações, brincadeiras, vivências e experiências.
Da mesma forma, todos os espaços de pesquisa do GEPCEI são também lugares nos quais a formação continuada, o diálogo, a troca de experiências e a colaboração mútua, são fundamentais para as/os profissionais que atuam nesses contextos institucionais e espaços sociais.
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